quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Ta, sobre ser grande

 Oi, pessoal!

Pessoal?! Pessoal?!


Será que ainda tem alguém aí?

Bom, não importa, mas seria legal se tivesse.

Hoje eu vou falar sobre meus 4 meses em Manaus. Mesversário de Manaus recente. Foi uma data muito louca, que ia passar em branco, mas foi incrível. Isso me fez ter muita vontade de vir aqui no blog contar. Eu ia escrever um texto todo poético e hermético, mas eu fiquei com vontade mesmo foi de escrever no bloooog!

Daí, eu fui ler o blog antigo, né. Óbvio. De onde vem essa vontade? Lá (aqui, no passado, exatamente o contrário de "là" no francês, enfim...) eu ia contando as coisas que eu ia conhecendo pros amigos... meus amigos liam o blog, não tinha rede social nem mensageria. Então, eu escrevia meio que pra contar pra todo mundo o que eu contaria no bar (ou no café, mas eu tinha 20 anos e não ia a cafés). Eu contava de tantas descobertas que eu tinha, de uma forma tão autêntica, genuína, sem vergonha. Eu falava de preconceitos, de coisas que estavam em formação. Hoje eu leio o blog e relembro de tanta coisa, é mesmo uma descrição da minha formação. E muito despretenciosa e gostosa. Eu não sei se hoje consigo escrever assim, mas eu vou tentar. Pelo menos, vai servir pra Livyta de 50 anos ler e ficar orgulhosa e entender como a gente chegou lá (nossa, "lá" serve pra tudo, hein?).


Conversando com o Lisney, sua filha Mariah e o gatinho (bem bem bebê) Príncipe, percebi que hoje (era dia 12 quando eu escrevi), faço 4 meses de Manaus. Lisney é indígena e vende paçoca com a filha na frente do Teatro Amazonas. Reclama que a conserva já tá 12 reais. Fala que ele almoça todo dia salsicha, miojo e frango empanado. Que um dia frango empanado era comida de rico. Hoje ele só come isso com farinha e o rico come suco verde. O frango empanado, a salsicha, o miojo, isso é o almoço de todo dia, por que até o produto amazônico tá caro. O açaí já tá vinte reais, a mandioca aumentou (a farinha, porque quase não se come a mandioca cozida, a farinha é mais fácil e rápida, não precisa de panela e gás). O Lisney não sabe o que é brócolis. A Mariah pela descrição que eu fiz diz que já viu, sabe o que é, mas nunca comeu. Ele me fala pra ficar na praça até onze horas e depois ir embora, fica feio. Ele me pergunta se é minha primeira vez em Manaus. Eu digo que moro aqui. Faz muito tempo?

Faz 3 meses. Não, na verdade hoje faz quatro.

"Parabéns dona Lívia. Lívia, né? Receba os cumprimentos e uma boa noite do Lisney e da Mariah". E a Mariah completa. "E do Príncipe". 


É tanta agilidade de pensamento. É tanta reflexão. É tanta sabedoria simples. Mas numa simplicidade que não tem lugar de ação. Chega a ser triste. E eu, finalmente, entendo os antropólogos (e talvez os sociólogos, isso ainda estou descobrindo) quanto a vontade de pegar essa sabedoria e transformar em políticas públicas.


Sim, eu estou há quatro meses morando em Manaus. Sim, eu me perdi no tempo e eu recebi os parabéns desses indígenas, desconhecidos até então (e agora, e, possivelmente, sempre) e de ninguém mais. Sim, eu percebo a solidão. Sim, eu reclamo muito do preço da comida. Do preço do brocólis. Eu não reclamo do preço do açai, nem da conserva (ou lata, que é a lata de fiambre, o pior tipo de carne que o sudeste fabrica... enlata "carne em conserva" e aqui no norte é a comida mais típica dos riberinhos e dos indígenas também. Chamam de "carne", "lata", "conserva", já ouvi de todo jeito. Uma vez, em uma viagem high-level, turismo de rico, o barqueiro parou o barco numa vendinha no meio do rio para comprar uma "conserva" pra vó. Parou o barco no casebre de madeira e palha e saiu com a lata de fiabre. Enquanto isso, eu e 2 turistas alemães e 2 suiços nos divertimos jogando bilhar e tomando kaiser na vendinha no meio do rio. Foi tão gostoso. Depois a gente passou na casa da vó do barqueiro, levou a lata. Ela pegou do barco na mão mesmo, a gente nem precisou descer porque a época era de cheia e o barco chegava até a janela dela. Bom, os nomes, o que as pessoas conhecem, o que o sudeste (hegemônico) exporta, tudo isso importa. Eu finalmente entendi o meu problema com o brócolis e o meu lugar de elite ao reclamar do acesso ao brócolis. Eu também entendi a dificuldade do acesso a alimento. À comida que sustenta, que já é cara, mas, especialmente, à comida saudável. "O rico toma suco verde". O Amazonas é o estado com maior índice de obesidade e pressão alta do país (o estado no meio da floresta, que não consgue sobreviver da floresta e que consome o lixo caríssimo da "civilização"... esse tem sido um ponto pra mim). Aqui, o suco verde custa a partir de 20 reais. Todo tipo de alimentação é caro. Seja no mercado, seja no café, (o que eu achei de barato são coisas muito, mas muito fritas, até o sushi frito é mais barato do que o normal, porquê??? tem um processo a mais!!!). O restaurante universitário ainda é barato (1,60) e é realmente bom. Mas eu, como pós-doc, pago a taxa de convidado (16,80). Eu ainda só como no r.u. quando vou à universidade e, entendendo que devem haver poucos pós-docs, ninguém ainda falou que essa era uma necessidade, brigou por isso, etc e tal, é aceitável que o status de pós-doc não te dê acesso ao restaurante, mas se fosse 1,60, eu sim, iria pra universidade para bandejar, porque lá tem salada crua e salada cozinha. Uma coisa curiosa aqui é essa coisa da salada cozida. Tem em toda parte. Você pega couve, repolho, acelga, cenoura, esses vegetais que são salada, mas dá pra cozinhar (tipo, alface não entra), cozinha tudo, fica muito gostoso, e se chama "salada cozida". Eu adorei. Inclusive, recentemente, eu descobri que pro meu dosha no ayurveda, essa seria a melhor alimentação. Uma coisa à parte que eu gostaria de discutir e sei que não vou é a relação amazônia-ayurveda que eu vejo em toda parte, especialmente na culinária. Mas tenho explorado bastante. Assim, como, recentemente, comecei a explorar as danças circulares (Wosien) com as dançcas indígenas. Bem, minha exploração é incipiente, rasa e sem metodologia, mas é uma forma de falar que essas coisas me interessam na minha vida. E me movem e acabam influenciando onde eu vou, o que eu faço, os meus movimentos. Enfin...


Bom, tudo isso para dizer coisas simples.

4 meses de Manaus.


Nesse dia, que foi dia 12, eu, na verdade, assinei um contrato de uma morada por um ano. Eu assinei esse contrato no dia 12, mesmo pegando as chaves depois, porque estava ansiosa. Mas eu não tinha percebido que era dia 12. Depois eu cheguei em casa, quebrada, esfarraparada. Eu queria ir pra academia, porque meu plano ia expirar no dia seguinte. Mas eu também queria ir pra ver uma dança no Teatro. A dança chama "Ta, sobre ser grande". "Ta" é uma palavra Tikuna. Eu entendi que significa "território", mas talvez seja outra coisa. Daí eu queria tanta coisa... Manaus é tão complicado quanto a isso, por que tem tanta coisa legal e as coisas ficam em até 20 minutos de você e custam barato (as coisas culturais, né... ingressos culturais são baratos... bem baratos, e mesmo assim, os espaços geralmente não estão cheios). Bom, enfim, eu queria ir na academia, trabalhar, ir nessa peça, descansar, etc e tal. Eu queria tudo. Eu trabalhei tanto, que eu me atrasei pro pilates. Daí eu já decidi que a academia (o ferro em si) valia menos. E, finalmente, decidi por ir na peça. Fazer as coisas tranquilamente. Poder tomar um banho, decidir a roupa que eu vou e desfrutar o "ir ao teatro". Eu ando fazendo as coisas muito a toque de caixa. Tipo trabalha até as 18h, 18h30 já é outra pessoa, com outra roupa, em outro lugar. Meu sistema nervoso não comporta mais isso (infelizmente, por que eu adorava esse ritmo e esse balanço das muitas personalidades e fazia bem na década passada).

Bom, eu fui na peça. Dirigi até lá, já sei um lugar de parar o carro. Já sei achar o meu lugar no teatro (com 4 meses hein!!! ;) ;) foda demaaais!!!). O espetáculo era uma dança contemporânea. O figurino era fantástico, e o mesmo figurino servia pra homem e mulher. Era uma coisa meio rasgado, mato, paleta-terra-verde-chão, mas era muito bem feito e bem pensado. Os corpos do corpo de baile eram incríveis. Tinha indígena musculoso, gordinha, branca gordinha, branca careca, pretos grandes e potentes. Realmente, foi o corpo de baile mais diverso que eu já vi. Durante a apresentação, eu me imaginei dançando ali (calma, gente, eu sei que eu não sei dançar, mas é que deu pra imaginar o meu corpo ali... e eu aprendendo a dançcar e chegando em algum lugar na dança... enfim, foi muito gostosa essa experiência. é bem diferente de quando você vai ver um ballet de SP ou do RJ, que você fica embasbacado com o que é mostrado, mas aquilo que é mostrado não fala com seu corpo, meio que cria um barreira dizendo que você não pode estar ali a não ser como expectator... eu tenho explorado mais meu corpo e querendo cada vez mais estar desse lado da produção... estão essa sensação foi muito boa).

Quando acabou o teatro, eu vi um restaurante que eu comi uma boa farofa de uarini em 2023, quando vim a primeira vez. Eu resolvi então jantar lá. Pedi um escondidinho de tambaqui. Tive a conversa com o Lisney. Descobri que fazia 4 meses que eu estava aqui. Que eu tinha uma comemoração em curso. Descobri que queria escrever no blog. E contar pra tantos amigos que eu amo e estão distantes todas essas descobertas. Mas eu não vou contar via rede social e ligar pra cada um não vai ser pra contar isso. Vai ser pra falar da vida.


Enfim, esse é um breve post em comemoração aos meus quatro meses de Manaus. Uma comemoração inesperada, seguindo as vontades do corpo, as intuições que resultou num "Ta, é sobre ser grande, então...".


Que venha mais o que tiver de vir!

Tá, é sobre ser grande, então...

Ahô











domingo, 22 de junho de 2025

Litha Amazônica

"The seasons alter: hoary-headed frosts
Fall in the fresh lap of the crimson rose,
And on old Hiems' thin and icy crown
An odorous chaplet of sweet summer buds
Is, as in mockery, set."


Da borda da floresta, celebro Litha. Da borda da festa, celebro São João. Da borda do verão, celebro o inverno.

Anuncia-se o verão amazônico. No meu corpo, expectativas e catarro. No meu copo, gengibre, cúrcuma, mururé. Infusão que aprendi ouvindo as plantas. E se há cura, ela vem das raízes. As raízes sempre sabem o caminho.

Aliás, foi escutando as raízes das palavras que aprendi isso também.

A palavra verão tem uma história que brota tortinha, como tudo que é vivo. A raiz latina vēr enunciava lá pros romanos primavera, a prima favorita de qualquer brasileiro. Um raizeiro português uma vez me contou que essa palavra é irmã da palavra grega éar, da palavra persa bahâr e da palavra russa vesná. Ele cultivava palavras e disse que todas significam Primavera. Num certo tempo, os povos da Península Ibérica chamavam de verão esse primeiro calor que agora chamamos primavera. E com o tempo, o que era começo virou auge. A primavera ficou sendo o primeiro verão, e o verão virou esse esplendor de energia e vibração solar.

Há palavras que mudam de estação. E há estações que mudam dentro da gente. Tenho meu segundo verão esse ano. Esse ano encantado, em que completo 40 voltas ao Sol. Neste ano, o verão trará também meu aniversário. Sempre achei mais ajustado comemorar meu aniversário no meio do verão, mas não encaixei bem no hemisfério norte. Engraçado, aqui, no coração da Amazônia, o verão sopra seus ventos a partir de junho. Somos o Norte do Sul. Somos um ponto invisível aos Nortes. Um ponto cardeal que não tem nome, mas existe, contrariando os estóicos. E só pra contrariar, mudei de estação sem mudar de hemisfério.

Hoje é São João, e como em tantas partes do mundo, celebramos o Solstício. Mistura de festa pagã e fé cristã, de tempos antigos e do agora, quadrilha e roda gigante, raízes e sonhos. Aqui, milho e mandioca. Muita mandioca. A sanfona distante acende em mim uma alegria antiga.

Com a garganta fechada e peito cheio, honro meu inverno no dia de São João. Ainda sinto meu corpo e meus ciclos desconectados do lugar. Na floresta, tudo balança. Me seguro no tempo, mas existe tempo sem espaço? Em Manaus, o verão chega aos poucos, como um velho amigo que demorou a escrever, mas nunca esqueceu o caminho da mata. É o início do céu azul profundo e do dourado do sol invadir as narinas. O dourado das fogueiras juninas subindo pelo corpo. O que está acima é como o que está abaixo e a alquimia da transição está em toda parte.

Nesse São João, nesse início de verão, Titania e Oberon aprontam mais uma vez. O descuído dos deuses derramado nos rios amazônicos. Dentro, a mesma magia desgovernada mistura as estações. "Sonho de uma Noite de Verão" foi a primeira peça que dirigi, aos noves anos. Sem saber direito o que era verão, direção, São João, mas sabendo já o que era sonho. Hoje, sabida(?), sou campo dividido, onde, juntas, bromélias brotam da neve e as raízes das samaúmas adormecem. Em meio a Titanias e Titônicas, também eu me tornei palco de um desacerto cósmico, onde os deuses das estações esqueceram o acordo do tempo e do espaço. Onde deusas gregas carregam coroas de flores mexicanas à diva maior, a Arte. São João, abençoai a Palavra!

Nesse solstício de Verão, meu peito carregado (ou vazio?) ganhou uma cobertinha e sopa de raízes e letrinhas, minhas antigas amigas. Respiro, tomo um momento. Uma música antiga, umas palavras engessadas brotam do gelo e avisam que tem uma Amazônia ali. Agora, aqui.

Faço em mim dessa Litha, desse São João, o resgate de tantas raízes e sonhos, palavras não tão diferentes assim. A honraria ao inverno, curvando-se frente ao verão equato-imperial que chega sem pedir licença. Eu lembro que o início não é auge. Eu lembro que o verão já foi primavera. Mais uma vez, a roda gira e gira, até se acertar. Se há uma noite mágica na floresta, com fadas, amantes perdidos e poções feitas de flores, ela é amazônica. Não poderia haver melhor história para se contar por aqui, onde a mata é viva e tudo tem alma, até o calor.

A Midsummer Night’s Dream, São João, Litha. Livy-Bonita-Camita. Uma mesma noite.

No mais longo dia do ano, desejo que todos celebrem seus sonhos e suas raízes. Essas luzes que crescem por dentro e por fora. Tudo brota, tudo cresce, tudo brilha.  Em dia sem Santo, num dia abafado, numa quarta-feira qualquer. Sem pressa, sem calendário.

Que o verão te encontre — onde quer que você esteja.
E que a tua palavra floresça.

Viva São João!

Viva o Verão!

Viva a Arte!

Viva o Viva!

Manaus, 22 de junho de 2025




segunda-feira, 15 de abril de 2024

 trinta e duas e trinta

à amiga, Verônica Kell


hoje às trinta e duas e trinta

eu vou estar ao pé do rio

e vou sentir o sol no rosto e sorrir

e verdadeiramente impressionar-me-ei ao ver o branco das gaivotas.

verdadeiramente.


hoje às trinta e duas e trinta

eu vou olhar para as coisas simples e pequenas

para uma rapariga a andar de patins

para as flores, os casais, o trabalhador

E meu coração estará completamente leve.


hoje às trinta e duas e trinta

lembrar-me-ei do universo

do grande, do complexo, do difícil

e hei de respirar e acreditar que sou

que somos capazes

que a lição é o caminho

e que as teias de crochet e algoritmos têm razão de existir.


hoje às trinta e duas e trinta

eu vou rir do menino a correr atrás do pombo

E a mãe dele vai rir

E a irmã dele vai rir

E a vó dele vai rir

E todas riremos juntas

alto, sem compromisso

estamos sempre a rir juntas

às trinta e duas e trinta.


hoje às trinta e duas e trinta

eu vou estar na cama do hospital

e vou vomitar verde e tanto e azedo e amargo

vou vomitar tudo

uma dor que não é minha

mas é.


hoje às trinta e duas e trinta

a menina de Gaza comerá iogurte

e bala, e bolacha, e bombom.

Ela estará a brigar com o irmão

querem os dois o cobertor vermelho,

não o azul.


hoje às trinta e duas e trinta

o sol estará a pino

e gentil

a lua estará cheia e brilhante

as músicas farão sentido 

e a arte e a vida estarão a imitar a natureza

e ninguém há de imitar a ninguém

a não ser a si próprio.



Às trinta e duas e trinta, 2020. Carolina Serrano.




07/04/2024 - Marcha Contra a Guerra em Gaza, Lisboa.



Uma cadeira, abril 2024.



Gaivotas no Tejo, março 2024.



Cabide para máscara, 2023. Fernão Cruz.


quarta-feira, 17 de agosto de 2022

Dinossauros e Baratas

Ao G. G. N., que não sabe se é barata ou dinossauro, mas com certeza é ser humano,

 

às vezes, bem às vezes, eu penso na gente como um bando de dinossauros, um bando de baratas.
um bando de qualquer bicho querendo se reproduzir e se expandir.
eu sempre fujo desse racional, pq ele é muito triste, pequeno, egoísta perto de tudo que a gente pode servir a este planeta, a esta comunidade.
mas vez ou outra, eu volto. eu sempre volto.


somos um bando de dinossauros.
somos um bando de baratas.
as baratas agora querem usar inteligência artifical e criar robôs.
os dinossauros agora querem criar dinossauros ainda maiores e totalmente indestrutíveis para matar outros dinossauros.

às vezes, só às vezes, eu vejo a gente como seres humanos.
certos animais que raciocionam além da capacidade de sobrevivência e fazem escolhas.


escolhas para que o planeta continue existindo.
escolhas para que o planeta se extingua bem rápido.
escolhas para que a gente colonize outros planetas.
escolhas para que outras baratas não morram de fome, ainda que sejam baratas, como todos.


sempre, todos os dias, eu me pergunto se sou dinossauro, barata ou ser humano.
e, às vezes, bem às vezes, eu tenho alguma resposta.
às vezes, eu sou a barata mais pisável.
às vezes, eu sou um dinossauro forte, até mesmo contra outros dinossauros.

mas ser humano sempre é difícil.
sempre tem escolhas, mil problemas aonde se conectar.
meus problemas individuais não parecem tão importantes quanto os problemas dos seres humanos,
ainda que meu terapeuta diga que sim.
às vezes, só às vezes, eu viro barata pra ser um melhor ser humano.
quase todos os dias, eu viro dinossauro pra ser um melhor ser humano.

mas é sempre muito difícil virar ser humano
e assim ficar.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Visita 2k e 62

aos amigos H.W., M.O., T.N.


2 máscaras

1 amigo

3 máscaras

4 amigos

4 máscaras

3, 0, 2, 1...

risadas, bobagens, proteção

2, 4, 6, 8 mãos em gel

medo, vontade, mistura

mistura tudo

mistura muito

muito tempo

2 palito, 2 anos, 730 dias?

730 pensamentos 

lá, ali, cá, voltaram

risadas, bobagens, medo, vontade

mistura

proteção

- obrigada pela visita. 

domingo, 26 de maio de 2019

Pausa

Finalmente, paro.
Paro no meio da estrada e sento.
Era isso mesmo?
Vim seguindo o melhor caminho que pude arranjar.
Vim seguindo só.
Vigiada por pensamentos idealistas e árvores cujas copas escondem o sol.
Paro à sombra e me pergunto.
Era isso mesmo?
Eu já nem respondo.
Eu tenho uma intrínseca capacidade de me ignorar quando começo com diálogos inócuos.
É mais claro que a Lua que não era isso.
Se tem algo que era, é que não era isso.
Tive mais vitórias que derrotas.
Tive derrotas que me contaram o que é crescer, o que é viver.
Afinal, não se vive só de vitórias.
Mas que não era isso, não era.
Era uma outra coisa.
Mais derrotada, eu acho.
Mas mais lenta, mais tranquila.
A derrota no matagal é tão mais simples que a vitória na metrópole.
Acho que é isso.
A falta da simplicidade
do ócio, do tédio
das meninas que sorriem só por que são meninas
das buzinas de sorveteiro que soam só por que são buzinas
E das folhas que balançam
E dos rabos de vaca de balançam
E das cadeiras que balançam
E das mãos que balançam.
É saudade só.
Alguém pode dizer.
Mas ninguém diz.
Nem eu.
Nem eu.
Então eu fecho os olhos e sinto um raio de sol insistente e curioso no peito.
Eu respiro.
Eu respeito.
É isso.
É só isso.
Amanhã é segunda feira.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Uma notícia feliz

Ontem eu tive uma notícia mto feliz. A Emily, que corta meu cabelo há anos, voltou a estar num salão no centro de SP. Ela tinha se mudado pra Guaianases há meses e eu estava me enrolando pra ir lá cortar. Felizmente (para mim), ela voltou! Agora está num salão todo chic (perfeito pros stories), tem cachorro fofo, toca rádio boa. A Emily é trans e todos os outros que trabalham lá são homens gays. Daí blz, primeiro dia da Emily no salão, eu cheguei, esperei, brinquei com os dois cachorros (Billy pai do Pingo, eles são iguais e a fita também é igual, então fica difícil). Conversei com a manicure que estava lendo o Universo em Desencanto. Eu disse que prefiro o cd ao livro, mas eu só li o primeiro capítulo do livro e o cd do Tim (meu íntimo, íntimo mesmo) eu ouvi muuuuitas vezes. Ela também gosta do Tim e tinha acabado de começar a ler o livro. Daí a Emily me atualizou da vida dela, o salão em Guaianases não tinha clientela, "olha, eu não tenho medo de mais nada na minha vida, nada". Eu atualizei ela da minha vida, "eu preciso sair de São Paulo, rápido". Minha irmã e minhas sobrinhas vão bem e vão cortar o cabelo lá também, sábado ou semana que vem. Daí a Emily resolveu cortar o meu cabelo do jeito dela, que é o que ela sempre faz. "Tá muito pesado, precisa de leveza". Cortou um monte, cortou muito, cortou tudo. Muita tesoura e a tal da desfiadeira. Eu que já tava com cabelo curtinho, descobri que tinha muito cabelo ainda para cortar. No final, eu falo que quero deixar reto atrás. Ela deixou com um monte de desfiado no pescoço que eu acho que vai me incomodar. Ela vira pra um dos outros cabelereiros "tem espelho?" "tem, ai do lado". Ela pega o espelho da parede do lado, um espelho enorme e todo meio rococó, e me mostra. "Vc tem que deixar ai o desfiado, por que combina com esse desfiado do ladinhho." "tá bom, vai, deixa". Daí a gente vê todos do salão olhando e rindo. O espelho de meio metro era fixo na parede. "Ah, mas eu tirei tão fácil". Ela tirou mesmo. E ele era muito mais bonito, dava um glamour pra uma conferida no corte. "eu também pensei isso no meu primeiro dia", disse um colega. Dar a última conferida naquele espelho lindo é um privilégio que nenhum outro cliente da Emily vai poder ter de novo. "Valeu, Emily. Se abrir sábado, a gente vem aí".
Chego em casa e ela manda mensagem "todo mundo adorou seu cabelo aqui!". A gente ri da última vez, quando eu raspei o cabelo baixo a protestos da outra cabelereira e de uma cliente. Ambas com cabelo comprido e alisado.
Enfim, parece que alguém está num lugar melhor essa semana. Eu estou bem melhor com meu corte novo e minhas três selfies. E fim.

domingo, 8 de julho de 2018

Fim do verão

Fechando um verão, começado há tantos outros, e um tanto deslocado de qualquer outro verão.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

sábado, 7 de abril de 2018

dia 7 de abril do ano 18

os santos estão todos muito longe
acordo, visto-me, ando, ando, ando
até bem perto
mãe e filho tomam sorvete
mãe, avó e carrinho de bebê
à sombra
um casal oriental
judeus levam quipás para passear
uma família carrega uma geladeira
vermelha, vintage
tão vermelha, tão vintage
dessas que não existem mais
que só uma família para carregar e que se cair
quebra
porta adentro, entro
nós todos, somos muitos
jovens comunistas, vegetarianos, sustentáveis
somos muito sustentáveis
fecha os olhos
deixa os problemas lá fora
faz uma conexão com seu corpo
você é a coisa mais importante do mundo
quando os pensamento vierem, desvia-os
no eco-mat
seguimos
os nada sustentáveis estão sendo mortos
hoje ele será preso
ou hoje, ou amanhã
abril é mesmo recheado de acontecimentos
seguimos nós calados
um acordo silencioso de sobrevivência
deixa a resistência lá fora
e equilíbrio ébrio
hoje até o ar dá um barato
olhar anda muito perigoso
ainda que pela janela
sobraram apenas windows

sexta-feira, 30 de março de 2018

quarta-feira, 21 de março de 2018

Morte 1

Eu também sou poeta
Mesmo que dos piores
Mesmo que dos que se repetem

Dos que já nascem tortos
Dos que têm coração do tamanho do mundo
Dos que acham que tudo vale a pena

Eu também sou poeta
Mesmo quando não tenho voz
Quando já não sei o que dizer
Quando a impotência compete a vulnerabilidade

Mesmo quando eu não quero
Ainda sou poeta
Quando não há peito, não há palavra
Quando não há sentido

Dos piores sim
Mas dos que insistem em falar
Ainda que não se saiba o que

Instaurou-se o caos
Estamos todos perdidos
Seremos calados ou mortos

E não parece haver o que fazer

domingo, 31 de dezembro de 2017

adulescens

Minha sorte veradeiramente minha sorte
foi um programa aleatório gritar que
que eu deveria ter algo novo.
E aí percebi que "novo" não dá pra flaggear.
E eu não quero ser nova
Nem velha, nem moderna
Sendo que eu, enquanto o que sou,
Só posso ser velha ou moderna
Só posso viver entre todos os erros e acertos
Eu!
Este que é impossível de definir, de deificar.
Eu mesma me sinto tão rouca, tão pouca
tão baixa, tão reles
Não é como se o que eu escrevesse pudesse ser qualquer coisa
e não será nunca
e esta é a premissa toda.

Se você não entende a premissa, então o melhor será ignorar toda a poesia aleatória que vem depois.
.

sábado, 23 de dezembro de 2017

Natal 2017

a pobreza que é feia de doer já é televisionada
acabaram-se todas as vergonhas
inclusive a do apresentador com vergonha da feiosa pobreza alheia
Finge-se achar um lugar perdido, finge-se caminhos cruzados
A senhora tem 29 anos
Mocinho, 61
Ele tem 11 filhos, depois de uns cálculos, ele conta
com 5 mulheres
Mas agora é para valer
Foi deus que botou ela no meu caminho
Eu não faço nada não
Nem eu
O menino de 6 anos não sabe quantos anos tem
O de 14 não tem sonhos
Bolsa família, Inss, dor nas costas
Deus escreve certo por linhas tortas
Você ganhou 1 milhão de reais
1 milhão é muito dinheiro
Eu prometi que antes do natal ia bater na porta da casa de alguém
Foi bater no interiorzão do Maranhão
3 mil quilômetros, 2 avião.
Vou para lá, ano que vem
Pegar um 4x4 e ir prum resort
Deus escreve certo por linhas tortas
Eu escrevo torto, vivo torto
Eu, eu, eu, eu.
Feliz natal para você e toda sua família.
Para você também, responde muito sinceramente minha vó.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

A ingenuidade das meninas

Como é bonita a ingenuidade das meninas!
Passa um homem e sorri
É um bom homem, dizem.
Passa uma velha a matraquear
Sorriem as meninas, é uma boa velha.
As meninas têm memória fraca
de pássaro ou de peixe
As meninas têm olhos mais amorosos que espertos
E corações com ganas de amores.
As meninas acham que sentirão saudades
As meninas esperam o pouso rosa e azul
As meninas estiram-se ao sol
(aquecem braços não abraçados,
secam a ramela secreta dos olhos)
As meninas batem à porta, ordenham vacas, recolhem lenha
Visitam moribundos e negam o não
Como é bonita a ingenuidade das meninas!
Dizem os que não são meninas.

(Para as meninas, bonitas são as meninas que perguntam o que é ingenuidade.)

sábado, 9 de dezembro de 2017

Boa sorte

moeda da sorte
lançada aos ares

presa a dois destinos
por mar atravessados

para um, Maria
para outro, Real

voa e cai
predestina o fado

em terras de cegos
me ler é pecado

domingo, 3 de dezembro de 2017

Estrado ao Oriente

Crianças bailam
Bailam no feio e sujo
e bailam
e baila!

Te mostrei o feio
aquele que não aceita mesóclise
Que começa devagarinho
e vai
vai
Por que o que a gente sabe fazer é
ir
é
rir
é sorrir
é
é
sem saber que é é ser
É um feio que de tão feio é bonito

O mais bonito que se faz
Não o que sabemos fazer
mas o que se faz
assim, desse jeito, sem nada
com tudinho ainda
sabes né?
Esse jeito, jeitinho
Que odeia o jeitinho
mas odeia não
bem encaixadinho assim...
Encaxaido de um jeito outro.
Simplemeste
incrivel
(mente)
encaixado.

Onde se enfia o que encaixa
assim
tanto
magnífico

encaixa só
Onde enfia?

Quantas regras ia PreCisar?
Nenhuma
Todas
Aquilo
Isso
Sabes
Sabes
Muito
Bem

Não a mesmo nada há funcionar
Mesmo
quando
ainda
é
pra
.

E as crianças bailam
Crianças que não são nossas
Crianças que nunca serão de
ninguém
sequer
que
entenda.

Isso
é
mesmo
engraçado
.

Diria^?, que não há nada a funcionar.
Pois
realmente, não há.
É incrível como real é não.

Não
é
mesmo
?

Mas crianças ainda bailam
E hão de bailar
Como
não?

Destino
esse
trem
que
nos
trasporta

Crianças bailam
e isso funciona
O que há mais de funcionar?
Diria eu nada.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Reflexão nº 1

Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.
Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Cantares gallegos - Rosalia de Castro

Cantares gallegos
     Rosalía de Castro

(uma poeta galega que conheci hoje
faz dois dias que aprendi que castro é um amontoado de gente
na península ibérica pré-românica com muralhas, em lugares altos
ou seguros --- nada mais apropriado como sobrenome)


- 27 -



- I -

¿Que ten o mozo?
¡Ai!, ¿que terá?
Ponme agora unha cara de inverno,
despois na fiada, ¡sonrisas de tal!
Quer que baile con el no muíño,
i aló pola vila, nin fala quisais...
¿Que ten o mozo?
Pois... ¿que tera?

Unhas veces, canciño de cego,
por onde en andare seguíndome vai,
nin hai sitio donde en non atope
un Bras con cirolas i os zocos na man.
¡Ai, que mociño!
¡Ai, que rapaz!

Noutro instante, ¡mirá que fachenda!...
atruxos que asombran ó mesmo lugar.
¡¡¡Brrr!!!, parece que pasa soberbo,
mandando nos homes su real maxestá.
Mociño, ¿es tolo?
¡Ai!, ¿si o serás?

 Eu non podo entender, meu amore,
que airiños te levan, que airiños te tran,
nin tampouco cal xeito te cadra,
tratándose, mozo, do teu namorar.
¡Ai!, ¡Dios me libre
de ti, bon Bras!

Que no meu entender te acomparo,
ó mesiño de marzo marzal:
Pola mañán, cariña de rosas;
pola tarde, cara de can.
¡Mala xuntanza
facemos! ¡¡Ai!!

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Chá

se me mandaram beber amargo por que eu bebo doce?

tudo é mais ou menos amargo
mais ou menos ruim
mais ou menos não

o que faz sim?

não sei se alguém sabe
mas sei que faz-se.
mas se alguém soubesse
se alguém soubesse o que faz
eu ficaria embaixo da jaqueira aprendendo
e ouvindo e achando que estou sendo.
abraço o mestre só para ser alguém ainda no mundo.
só pra invólucros classistas e intelectuais empoeirados

até uma jaca bem grande cair na minha cabeça
e, em coma, chegar no hospital
sem espaço, nem número, sem leito

daí eu fico embaixo do pé de manga
e olho a movimentação
inútil

olho o braço quebrado que chega
olho o cigarro sujo da enfermeira limpa
olho a motoqueira de perna quebrada motocando
olho a vó de outra pessoa verdadeiramente morrendo
Ela está verdadeiramente morrendo

E eu sou só a idiota que fala "verdadeiramente"
embaixo do pé de manga
tão real quanto as dores no peito
dos docentes de sim.